Descobri recentemente a crise dos vinte-e-poucos anos.
Acho que estava já adormecida sob uma espessa capa de
afazeres, mas foi desencadeada especialmente pelo final da universidade: durante
anos e anos preparamo-nos para a chegada da graduação, o momento em que nos
formamos… mas quem nos prepara para o que vem depois?
Por vezes imaginava que voltaria a viver em casa dos meus
pais, que sairia da cidade que me acolheu durante aqueles anos tão gloriosos,
mas todos esses cenários estavam inscritos num futuro incerto, e por isso
irreal. Quando este se transformou em presente, porém, a força com que a nova realidade
tomou conta do meu dia-a-dia foi maior do que esperava. E de um dia para o
outro deixei de ser uma jovem universitária livre e feliz para passar a ser uma
desempregada inexperiente e sem casa própria.
Descrição melodramática com um grande fundo de verdade.
Que somos nós afinal aos 20 anos? Imagino o ar trocista do
meu pai se lesse esta questão.
Dir-me-ia que somos muito jovens, que temos todo o futuro pela frente e que as
preocupações existenciais que hoje nos agitam perderão em breve toda a sua
importância. E que o Carpe Diem é uma fantasia, porque não sabemos quanto tempo
ainda nos resta aqui.
Mas do outro lado, aqui no início da escadaria, estamos nós,
jovens sem rumo, cuja procura do Santo Graal é uma busca de si próprio, cujos
medos se erguem em sombras que por vezes ocultam o sol que, dizem, nasce para
todos e os passos se dão na fronteira com areias movediças.
Vivemos na incerteza, que nos angustia. E ao mesmo tempo, no
topo das escadas, tantos outros vivem na angústia da certeza do seu amanhã…
